Se você acha que o trabalho de um numismata se resume a comprar e vender moedas, cédulas e medalhas antigas, este artigo vai mudar a sua visão.
Catalogar uma peça inédita ou escassa exige faro histórico, precisão científica e, acima de tudo, um olho clínico treinado para enxergar o que a maioria deixa passar.
Hoje, vou abrir as portas da nossa mesa de trabalho na Collexy Brasil para mostrar o passo a passo de como cataloguei uma joia da história financeira nacional:
A Medalha Comemorativa de 50 Anos do Banco do Comércio e Indústria de São Paulo (1889-1939).

Passo 1: O Contexto Histórico – O Gigante Chamado COMMIND.
O primeiro passo de qualquer catalogação é entender a alma da peça.
Quem a emitiu e Por quê?
Fundado em 1889, logo após a Proclamação da República, o Banco do Commercio e Indústria de São Paulo — carinhosamente conhecido como COMMIND — nasceu do capital dos barões do café. Ele não foi apenas mais um banco:
O COMIND foi o grande motor financeiro que financiou a transição da economia agrícola para a industrialização do Estado de São Paulo e do Brasil.
Décadas mais tarde, a solidez e as estruturas dessa vertente bancária paulista pavimentaram o caminho para o surgimento de gigantes como o Banespa (Banco do Estado de São Paulo), instituição que moldou o crédito, a infraestrutura e o desenvolvimento do país no século XX.
Emitida em 1939, esta medalha Comemorativa de 50 anos celebra exatamente o apogeu desse império financeiro. Ela não era vendida ao público. Foi cunhada em tiragem baixíssima (estimada em poucas centenas de unidades, menos de mil) para ser entregue exclusivamente a diretores, grandes acionistas e clientes de altíssimo prestígio da época.

Passo 2: A Prova dos Metais e a Metrologia.
Com a história mapeada, partimos para a bancada física. Informações sobre essa medalha eram inexistentes na internet, até agora. Por isso, a precisão milimétrica aqui gera um documento inédito para a numismática.
O Teste do Ímã: A primeira coisa que fiz foi aproximar a peça de um ímã. O objetivo? Garantir que a alma do metal é legítima. O bronze de época não possui propriedades magnéticas. Teste aprovado: a liga é autêntica.

Passo 3: Aferição Técnica:
Levada à balança de precisão, a medalha registrou exatamente 16,4g. Registramos também o diâmetro (33,53mm) e a espessura (2,24mm). Esses dados são fundamentais para blindar o mercado contra falsificações modernas fundidas, que jamais conseguem replicar o peso exato de uma peça cunhada sob pressão industrial.
Dei uma olhada nela com uma lupa, não tem nenhuma marca de gravador ou cada da moeda, bem que eu gostaria de saber aonde foi cunhada e a sua tiragem, ela não é fundida, o que leva a crer que em 1939 poucos lugares tinham capacidade para a cunhar.
Onde ela foi cunhada?
Como confirmei que ela é cunhada (e não fundida) e que não traz marcas de gravadores independentes de São Paulo (como a tradicional Liceu de Artes e Ofícios ou o ateliê de Zadig), a resposta histórica mais provável aponta para a Casa da Moeda do Brasil (CMB), no Rio de Janeiro ou que foi cunhada na casa da moeda de algum país estrangeiro (menos provável, já que o Comind era um banco brasileiro). Monopólio Técnico: Em 1939, o Brasil passava pela era Vargas, um período de forte centralização e industrialização. A Casa da Moeda detinha o maquinário pesado de prensas de fricção e prensas hidráulicas necessárias para cunhar medalhas de bronze de alta qualidade com módulos grandes e alta definição de detalhes. Contratos Institucionais: Era o padrão absoluto que grandes bancos e instituições financeiras (como o COMIND) encomendassem suas medalhas de efemérides diretamente à Casa da Moeda, utilizando os gravadores oficiais da instituição (que muitas vezes assinavam apenas nos registros internos, omitindo o cunho na peça a pedido do cliente).
Qual é a tiragem estimada?
Na numismática corporativa daquela época, as tiragens eram calculadas estritamente com base na governança da empresa e raramente passavam de 500 a 1.000 unidades. Distribuição Seleta: O Banco do Commercio e Indústria de São Paulo mandava confeccionar o número exato de medalhas para presentear seus membros do conselho, grandes acionistas (a elite cafeeira paulista), diretores de agências e os clientes institucionais mais valiosos.
Sobrevivência das Peças: Desse lote inicial estimado em poucas centenas, a grande maioria se perdeu em inventários familiares, foi descartada ao longo das décadas ou acabou sofrendo severos desgastes e oxidação (azinhavre) devido ao mau armazenamento. Encontrar uma sobrevivente em estado Soberbo é o que valida o seu preço de venda.
O fato de ser uma peça cunhada sob alta pressão em 1939 prova que ela veio de uma grande estrutura industrial como a Casa da Moeda e que sua distribuição restrita a diretores a torna uma verdadeira relíquia do apogeu financeiro de São Paulo.
A ausência desses dados ocorre pelos seguintes motivos do mercado numismático:
Dados Omitidos em Leilões: Sites de leilão (como os históricos do próprio Antônio Ferreira) costumam focar apenas no título da peça, no estado de conservação e no valor arrecadado. Eles raramente perdem tempo pesando ou medindo medalhas corporativas comuns em balanças de precisão.
Falta de Catálogo Oficial de Medalhas: Ao contrário das moedas brasileiras — que têm todos os pesos e diâmetros listados milimetricamente em livros como o Catálogo Bentes ou Catálogo Amato, a medalhística corporativa do século XX não possui um catálogo unificado de referência com fichas técnicas de tiragem. Trazer o dado de 16,4g e as demais medidas físicas dá um caráter de pioneirismo absoluto a este trabalho. Esta é a primeira catalogação pública e independente das especificações técnicas dessa medalha na internet.
Passo 4: A Análise de Conservação e o Veredito “Soberba” – AU53 na minha opinião.
Determinar o estado de conservação exige honestidade e critério rígido. Comecei procurando por dois grandes inimigos dos colecionadores: Sinais de limpeza química recente: O uso de abrasivos destrói o valor numismático. Felizmente, esta peça exibe uma pátina de bronze firme, uniforme e intocada pelo tempo. Desgastes de manuseio ou armazenamento inadequado: Busquei por batidas severas na orla (bordo) ou riscos profundos no campo. O fundo está incrivelmente limpo. Ao analisar o colar de pérolas interno e os cantos vivos do imponente numeral “50º”, notei que os relevos preservam cerca de 95% dos detalhes originais do cunho de 1939. O veredito não poderia ser outro: Estado de conservação Soberba (S).

Passo 5: O Olho Clínico – Descobrindo o Cunho Duplicado (Doubled Die).
Quando a catalogação parecia encerrada, decidi olhar ainda mais de perto, com o microscópio e ampliação de fotos. Foi aí que o “trabalho de detetive” do numismata se pagou.
Reparei uma belíssima anomalia técnica na cunhagem: Um double die (duplicação de cunho) bem nítida em letras específicas da legenda, com destaque para o B, C, S e L. Essa duplicação ocorria na prensa de fricção durante a fabricação da moeda/medalha na época. Para o colecionador de alto nível, esse detalhe é fascinante. Além de ser uma assinatura de autenticidade mecânica impossível de ser clonada por fundição, a variante torna esta sobrevivente uma peça única no universo das poucas medalhas remanescentes do COMIND.

Conclusão:
Catalogar é resgatar a história e dar a ela o valor correto. Esta medalha de 16,4g em bronze não carrega apenas o registro de um banco de 1889; ela carrega a robustez da engenharia fabril de 1939, a história do progresso de São Paulo e o charme de um erro de cunho descoberto na lupa. A peça já está catalogada, fotografada em todos os seus ângulos técnicos e disponível na nossa loja online. E você, costuma caçar detalhes escondidos nas suas peças com a lupa? Deixe seu comentário aqui na Sala do Colecionador!
Fixa técnica da Medalha:
Origem: Brasil
Tiragem: <1.000 (rara).
Tipo: Medalhas comemorativas
Ano: 1939
Composição: Bronze
Peso: 16,4g
Diâmetro: 33,53mm
Espessura: 2,24mm
Formato: Redonda
Bordo: Liso
Padrão de Alinhamento: Medalha 0° ↑↑
Reverso:
No campo centralizado em um círculo liso, constam as datas comemorativas sobrepostas 1889 / 1939, em grafia de cantos retos e relevo pronunciado. Adornando a composição externa, há uma rica e exclusiva homenagem ao motor econômico que fundou a instituição: Ramos de café frutificados brotando na porção inferior esquerda e envolvendo o topo direito da medalha, simbolizando a pujança da cafeicultura paulista financiada pelo banco.
Anverso:
Em relevo pronunciado na orla superior e lateral, lê-se o dístico: BANCO DO COMMERCIO E INDUSTRIA DE S. PAULO. Na porção inferior da orla, centralizada uma estrela de cinco pontas separando o início e o fim da legenda. Delimitando o campo central, encontra-se um colar circular perfeito composto por 90 pérolas em relevo. O núcleo central é dividido horizontalmente por duas linhas paralelas finas. No terço superior, destaca-se a inscrição 50º. No centro, ladeado por dois traços horizontais, o dístico — DA —. No terço inferior, a palavra FUNDAÇÃO sobreposta ao dístico final — DO —, também acompanhado por traços laterais.
Segue o link desta peça incrível e única para você comprar:
https://collexy.com.br/produto/rara-medalha-50-anos-do-comind-banco-do-comercio-e-industria-de-sao-paulo-1889-1939-bronze-s/
Um grande abraço e até a próxima!